segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Destino Iminente

Ps: Essa é a primeira parte de uma serie de historias. Tomara que gostem


Era uma vez, em uma antiga e abandonada estrada, nos confins mais longínquos, nos lugares mais inalcançáveis do reino de Nenhures, aonde diziam que só se era possível chegar através de mágica antiga ou pelo poder das poucas fadas e entes míticos que ainda habitavam o reino. Em uma desolada estrada que diziam só ser encontrada por homens sem fé ou esperança, por guerreiros outrora lendários ou senhores absolutos que haviam á tudo perdido. Em uma estrada amaldiçoada, que só os amaldiçoados poderiam alcançar. Nessa longínqua estrada, havia como se perdido no tempo, parado em cima de seu cavalo, não mais que um rapaz, um menino apenas, a contemplar seu destino iminente.

Ele ainda estava em cima do pasto verde e fresco, a suave e macia grama das cabras que demarcavam o alcance de todo o reino de Nenhures. E ele precisava que sua montaria desse apenas um passo a mais, um único galopar alem dos pastos, apenas um pequeno movimento de suas patas, que ela apenas tivesse um único momento de coragem insensata para que ele fosse alem das fronteiras e alcançasse os confins mais longínquos jamais idos.

A sua frente à antiga estrada de terra parecia levar a lugar nenhum, como muito dos estranhos caminhos mágicos do místico reino de Nenhures. Era muito, muito longa, e larga, feita de uma terra dura, batida e seca, avermelhada de um encardido imundo, completamente quebradiço. Estendia-se por centenas de quilômetros em linha reta, e apenas no fim do horizonte começava a fazer uma curva. Era desolada aos lados também, já que nem flores ou mato cresciam em seus arredores apenas mais e mais terra seca e dura, nem mesmo a luz do sol a iluminava direito, uma vez que nem mesmo a majestosa lua ou o poderoso sol ousavam brilhar após as fronteiras de Nenhures. “O mundo acaba aonde acaba as gramas das cabras”, era o que diziam os mais antigos.

O cavaleiro lentamente parou seu cavalo afagando o seu pescoço. E como se não soubesse fazer isto, ou tivesse perdido a pratica, deu para ele com todo seu esforço um sorriso mocho a fim de agradecer por telo trazido ate ali.

Um olhar mais próximo mostrava a face entristecida do cavaleiro... A testa enrugava perante a preocupação de um passado falho, o coração batia fragmentado (apesar de intensamente) ao se lembrar das decepções sofridas e as causadas. As mãos frigidas seguravam as rédeas, mas não às possuíam. Usava uma armadura rouca com pequenos detalhes em dourado que lembravam um brasão ou algum animal mítico, mas impossível de se distinguir pelo desgaste dos anos e dos flagelos impostos pelos combates. Sua espada mesmo embainhada não escondia sua aparência medíocre e frágil. Seu cabo outrora imponente e majestoso, brilhante e dourado tornara-se de um amarelo pálido e de um aço musgo, um bom guerreiro certamente rejeitaria tanto espada quanto armadura. Em suas costas jazia um escudo, sujo e partido estava preso por uma tira de couro negro, estava lá apenas por trazer lembranças, já que tinha perdido toda sua capacidade defensiva. O menino não parecia ser grande oponente, ouso dizer que naquele momento não era capas de fazer-se temer por nada ou ninguém. Em seus olhos não havia qualquer confiança ou bravura. Não havia nele nada como os príncipes das grandes historias: estava longe de exalar uma áurea de poder. Não parecia sequer corajoso, só algo era bom nele: seu majestoso cavalo negro. O que fazia ainda mais difícil de entender seu próximo ato.

Desceu de seu cavalo tão rápido que foi impossível sequer acompanhar com os olhos. Era muito mais ágil do que parecia, e moveu-se como se a armadura ou a longa viagem não importassem, não parecia cansado, não deu nem um suspiro sequer após seu movimento rápido. Em seus pés ainda havia no ar a poeira de seu desmontar.

Afagou sua montaria novamente, e novamente apenas foi capaz de dar um sorriso que era mais triste do que qualquer outra coisa. Olhou para seu cavalo e disse em tom de partida:

- Sabes que tenho de ir sonsinho a partir daqui não sabes meu amado? É uma estrada maldosa que não permite acompanhantes.

O cavalo pareceu querer mordê-lo. Relinchou bravo, quase como se ofendido. O garoto riu sinceramente dessa vez.

-Não seja tolo meu amor. Sabes que não e mais seguro a partir daqui não sabes? Tu sabes que sou incapaz de defendê-lo, não sabes?

O cavalo virou a cabeça como se não quisesse ouvi-lo. Ele riu de novo. Olhou para sua montaria com os olhos avermelhados pelas lagrimas que pediam para sair, tomou fôlego e voltou a afagá-lo no rosto.

-Olhas para mim! Vê? Já não sou aquele de antes... Olha a minha armadura como se encontra? Que utilidade pode ter a minha espada? A quem defenderei com meus escudo partido? Se sou incapaz de me defender, como defenderei a ti? Percebes como seria terrível a mim perde-lo?

A voz do menino soava tão doce e triste que parecia difícil não atendela. Mas ele relinchou novamente ainda mais bravo, o garoto então aumentou seu tom de voz para uma estranha entonação de poder, um poder incapaz de ser questionada, impossível de não ser temido.

-Então, como teu rei eu te ordeno! Ordeno que corra pelas verdes gramas das ovelhas e não olhes mais para esta terra morta. Exijo que se vá e que me esqueça!

Ele apenas relinchou novamente. O garoto pareceu mais uma vez entender o que seu cavalo dizia, era como se falassem a mesma língua muito alem dos gestos ou das palavras.

-Há! Vá, eu te peço! Da me este gosto, te imploro. Faz isto porque sou seu amigo e me queres feliz. Amigos fazem isso não fazem? Fazem o outro feliz?

O cavalo então em um lance se pos em pé novamente tomando proporções gigantescas. Mexendo duas patas dianteiras relinchou não como um mero cavalo, mas sim como se ele mesmo fosse à encarnação dos antigos deuses feras que dominaram esse mundo a milhões de anos, e naquele momento pode pode-se então ver sua incrível beleza. Ele era de proporções colossais, como apenas um grande cavalo de reis poderia ser! Seu pelo era negro como a noite, sua cauda longa e sedosa. Sua crina alta e brilhante fazia ofuscar ate o por do sol que ousava brilhar atrás dele. Ele relinchou ainda mais alto fazendo o som de mil trovoes em fúria e andou em direção ao garoto, e cada passo seu fazia a terra tremer. Quando chegou perto o suficiente para um sentir o respirar tenso do outro, olhou o garoto diretamente nos olhos, respirou por duas vezes e se deixou cair em cima do menino.

Ele caiu em seus ombros com suas duas patas, deixando apoiar-se no menino sua quase uma tonelada. E por mais incrível que pareça o frágil garoto pareceu suportá-lo facilmente. O cavalo aproximou sua cabeça a do menino e envolveu suas patas em seu pescoço, a estranha imagem de cavalo e menino se abraçando ficaria eternamente marcada na cabeça das ninfas que por ali passavam: Uma frágil criança confortava um deus.

E eles ficaram assim não se sabe por quanto tempo. O cavalo afagando seu rosto no rosto do menino, deliciando como se fossem verdadeiros irmãos que se preparavam para se separar em uma jornada longa e sem volta.

O garoto ainda fora capaz de pronunciar suas ultimas palavras para seu corcel amigo, sua ultima prece de boa sorte no mundo que ele decidira abandonar.

- Vai destino, fiel amigo, parte em direção oposta, pois contigo, adiante não posso ir, mas, vá e encontre outro para ti, para que tenhas dono e também seja o dono dele.

Então sem que um dissesse se mais nada para o outro, o cavalo se virou e correu em direção aos campos verdes atrás dele, e por mil anos não fora mais visto novamente neste mundo, ou aceitará ter qualquer outro dono.

O garoto então se virou para a terrível estrada, para o caminho morto, para seu destino iminente e sem hesitar deu um passo à dentro. Um terrível vento frio o cortou uivando num grito louco e desesperado, um falcão cantou alto como se chorasse desconsolado. O chão tremeu e as flores daquele dia nunca mais desabrocharam. O céu ficou pálido e o sol perdeu seu calor. Estrelas se apagaram no céu. Crianças nasceram prematuramente.

Mas para ele nada mais fora que mera coincidência.

***