terça-feira, 3 de agosto de 2010

Borboleta


Certa vez, um homem de idade já avançada e tido como um grande sábio encontrava-se infeliz com sua vida e com tudo que tinha aprendido, então pediu aos deuses que lhe contassem quem ele era realmente.

Nessa mesma noite teve um sonho místico que era uma larva em sua escalada dantesca pela copa de uma arvore, enfrentava frio, ventos e chuva, o assedio dos pássaros, o sol escaldante em uma longa jornada que levou dias apenas para fazer um caminho tão curto. Naquela manha acordou exausto, com todos os seus músculos doendo como se ele mesmo tivesse subido a arvore, e também frustrado, então ele era isso? Uma larva que sofria anos e anos para fazer uma jornada tão curta? Passou o dia entristecido com a resposta que ele tinha tido do sonho, tamanha era sua dor que mesmo apesar do cansaço não consegui pregar os olhos na primeira noite.

Exausto, no terceiro dia dormiu novamente. Dessa vez ele não era mais larva, havia se tornado um casulo. Sentia-se sufocar, queria desesperadamente sair, respirar em paz, se debatia e gemia, queria ver o sol, sentia saudades do frio, até mesmo do medo do vôo dos pássaros, sentia saudades da longa subida, achava que jamais romperia o casulo. SIM! Era obvio, morreria ali, preso naquela enfadonha casca, o desespero tomava conta de sua mente, a dor, a falta de ar, a esperança o abandonava, começou a se debater desesperadamente, e então quando suas ultimas forças o abandonaram rompeu o casulo e teve por um momento a maravilhosa sensação do ar voltando aos seus pulmões. No momento seguinte se viu em queda livre do topo da arvore!

Acordou no chão caído da cama, enrolado em suas cobertas que o haviam quase sufocado por acidente, estava pingando suor, novamente estava exausto. Mas de alguma maneira naquela manha não estava cansado, pelo contrario, se sentia incrivelmente livre. Mas ainda assim uma grande tristeza se apoderou dele, então, pensou o sábio, a velhice era isso? Uma sufocante casca a ser partida? A liberdade vinha com a morte? Mas e o que havia depois de romper invólucro, o que esperava cada ser vivente, e com medo ele se deitou aquela noite.

Caiu no sono apenas muito tempo após ter se deitado, manipulado por seus medos resistia a fechar os olhos, adormeceu por final despercebidamente e no mesmo instante sonhou.

No sonho ele se encontrava novamente em queda livre e o frio e o medo se espalharam por cada gota de seu sangue, e a cada instante ele ficava mais próximo de seu fim, mas então no desespero ao balançar seus braços percebeu que tinhas asas e alçou vôo.

Conheceu a liberdade. Experimentou do néctar das flores, da brisa mais leve e da deliciosa sensação de lutar contra as tempestades, planou na brisa, levitou com o ar quente e amou a sensação de voar. E numa tarde qualquer, ao afagar os olhos nas flores encontrou-se novamente em casa, deitado em sua cama.

Aquela manha conheceu uma saudade que não sabia ser possível, cheirou todas as flores, mas nenhuma delas tinha a mesma fragrância, sentou-se a brisa, mas de que adiantava se não possuía mais a liberdade de voar?


O homem entendeu então que nuca fora sabio, e na sua infinita miseria ficou feliz, havia perdido o medo da morte. Tinha orgulho de sua jornada e aonde tinha conseguido ir, agradeceu aos deuses por ter sido abençoado com tal sonho e se orgulhou de seu corpo cansado e de tudo que ela tinha suportado com ele.

Agora fica sempre pelos cantos, não fala mais, dizem que perdeu a sanidade, culpa da idade, e talvez se conhecessem sua alma teriam ainda mais certeza sobre sua senilidade, pois na mente do homem que um dia fora chamado de sabio e buscou a todas as respostas da vida apenas uma questão o atormentava:




“Seria ele um homem que sonhou que era uma borboleta, ou era uma borboleta presa num sonho em que é um homem”?




Divagação infinita.