quarta-feira, 19 de março de 2008

A gota

Caia a tempestade sombria e sombria

E com ela cem mil gotas caiam

Caia a tempestade em noite raivosa

E com ela caia a pobre gota chorosa



Caia a gota pequena e bela

Ao seu lado caiam outras gotas mil

Mas nenhuma delas tinham em seu coração

O medo que tinha a doce gota singela



E assim caia a gota perene

Em direção ao solo de venturas e mensuras

Caia ela chorando a se lamentar:

-Pobre de mim que já fui nuvem gloriosa, serei agora apenas gota nebulosa



E Assim foi caindo com medo do estar

Tinha ela medo do Mar se tornar

Tinha medo ela de rios adentrar

Tinha ela medo da terra lhe obliterar



E assim foi caindo tal gota chorosa

Comovendo os céus em sua despedida dolorosa

E sua mãe com tal cena ficou dolorida

Mandou em seu encalço seu mais belo filho



E Na queda homérica ela foi alcançada

E pelo poderoso trovão questionada

Sua voz poderosa preencheu a escuridão:

-Porque choras minha pequena, o que te faz soluçar?



Ela respondeu ainda mais chorosa:

Tenho medo do Mar e de meus irmãos nunca mais encontrar

Tenho medo da terra e da sede dela

Tenho medos dos rios e de sua corrente impiedosa



E o trovão tremeu os céus com sua resposta:

Oh bela gota, oh meu amor então já tenho sua resposta

La embaixo a uma coisa pequena e misteriosa

Ela e levada pelos rios, engolfada pelos mares e comida pela terra



Ela é delicada e não vive mais que uma estação

E frágil e se não for protegida ate as chuvas e os ventos a levaram

Mas seu aroma é extraordinário e sua cor apazigua o coração

É o presente dos apaixonados em qualquer estação.


E a gota encantada parou de chorar

E olhando pra baixo começou a sonhar

E ao majestoso trovão ela perguntou: e o que seria isso?

E com sua voz retumbante, com seu coração pulsante ele respondeu: Uma Flor



Uma flor? Disse a gota mimosa

E olhando a terra começou a procurar

Desviou do norte e dos mares gelados e ao sul dos rios arraigados

Ao oeste fugiu do vulcão e ao leste prendeu a respiração



E então ela olhou para todos os lados, mas não via flor

E foi caindo e caindo, sinuosa e tortuosa

-Ai triste sina minha, pensou a gota a chorar, queria ser uma flor, mas com a terra irei me dar

E caindo ao chão foi devorada e para as entranhas da terra levada



-Onde estou? Perguntou a gota

-Onde as coisas começam, respondeu a semente

-Quem é você, perguntou a gota medrosa

-Quem eu sou não importa, o que importa é o que podemos ser juntos



E a gota tocou na semente, e a semente virou uma flor

E a flor era uma rosa

E não havia mais semente ou gota

Apenas flor, apenas rosa



E aquele ano, antes do fim da estação a flor foi colida em um dia de chuva

E aquele dia foi dada a mãos suaves por mãos apaixonadas

E naquele momento foi colocada na lapela pelas mesmas mãos suaves



E foi testemunha de um beijo

E foi testemunha do amor!